jun 10 2009
O poder das novas mídias: entrevista para Diego Melo
Em abril deste ano eu concedi uma entrevista para o estudante de jornalismo da Unesp Bauru, Diego Melo, para um trabalho da universidade. Foi uma entrevista por e-mail onde conversamos um bom tempo antes por MSN e alinhamos as expectativas, necessidades e como eu podia ajudá-lo.
Gostei de ter ajudado o Diego, um estudante interessado e disposto a ser um bom jornalista. Fico feliz por isso, precisamos de bons jornalistas neste país, antenados com todas as grandes mudanças que estamos vivendo.
Vou reproduzir a entrevista aqui no blog na íntegra, pois como trabalho acadêmico ela fica muito restrita, reservada aos poucos que tiveram acesso a ela (como muitos trabalhos de conclusão de curso que ficam empoeirados nas bibliotecas das universidades).
O Poder Das Novas Mídias
Em um bate-papo descontraído, o empresário, professor e palestrante Paulo Milreu comenta sobre a carreira, os novos desafios da Tecnologia da Informação, a participação do interior de São Paulo no “universo online”, e o crescente poder e influência das novas mídias digitais na chamada “Era da Informação”.
por Diego Melo
Paulo Milreu é um apaixonado confesso por tecnologia. Quando mais jovem, ingressou em um curso de Engenharia Elétrica, onde ficou por quatro anos e acabou descobrindo outra paixão: a informática. Desde então, não a abandonou, e hoje, já Bacharel em Administração com Habilitação em Marketing e pós-graduado em Comunicação Corporativa, se tornou um “evangelista das novas mídias digitais” – em suas próprias palavras. Paulo também é um empreendedor de sucesso. É sócio da SmartIS Comunicação Digital (www.smartis.com.br), uma empresa especializada em soluções e serviços para internet envolvendo conhecimento estratégico em comunicação digital e e-business, e sócio-consultor da PMC&Associados – Inteligência e Estratégia (www.pmcassociados.com.br), uma empresa de consultoria, treinamento e pesquisa, onde exerce mais duas funções: palestrante e consultor.
Como se isso não fosse suficiente para seu gênio inquieto e investigador, Paulo também dá aulas em cursos de pós-graduação, nas disciplinas de Planejamento Estratégico, Planejamento e Implementação de Ações de Marketing, Gestão Estratégica de Conhecimento e Estratégias Competitivas.
Casado, pai de dois filhos, ainda encontra tempo para manter atualizado seu blog pessoal (www.paulomilreu.com.br), onde comenta sobre Novas Mídias, Marketing Digital, Mídias Sociais, Eventos e até algumas Generalidades.
Na entrevista abaixo, Paulo Milreu fala um pouco sobre a sua carreira, o seu trabalho, e faz uma grande afirmação: “A internet não é uma bolha, é realidade”.
Diego Melo – Você é natural de onde?
Paulo Milreu – Penápolis, São Paulo.
DM – É casado? Tem filhos?
PM – Casado, 2 filhos.
DM – Por que escolheu cursar Engenharia Elétrica antes de ingressar na área Administrativa?
PM – Entrei na faculdade aos 17 anos, mal saído do 3º colegial, sem saber muito o que realmente queria como profissão. Até hoje, isso acontece muito com os jovens nesta idade, e acho isso algo absurdo. Acredito que o jovem tem que viver um pouco mais antes de escolher sua profissão e, portanto, não é com 17 anos que a sociedade deve “empurrá-lo” para a faculdade com aquela cobrança típica.
DM – Como surgiu a idéia dessa mudança quase radical de área?
PM – Cursei quatro anos de Engenharia Elétrica e abandonei faltando apenas um ano. Não acho que foi a melhor decisão; deveria ter finalizado essa graduação, mas meu envolvimento com informática já era grande e acabei seguindo outro rumo. A administração e comunicação vieram depois.
DM – Quais foram as maiores contribuições que estes quatro anos do curso de Engenharia Elétrica deram para a sua vida profissional?
PM – Sem dúvida, a vivência na universidade lhe traz grandes aprendizados, além do próprio aprendizado técnico. A engenharia me fez ter uma visão mais cartesiana, e a vida no campus me trouxe mais experiência de vida.
DM – No Brasil, o conceito de Tecnologia de Informação é um pouco recente. Como surgiu o interesse por essa área?
PM – Dentro da faculdade de engenharia eu já era um “rato” de laboratório. Naquela época, o laboratório de informática era um só, com um ar condicionado muito potente, onde eu tinha que levar agasalho para ficar lá conhecendo, fuçando e aprendendo. Comecei com TK85, TK2000, Prológica CP500, Cobra 210, Sistema 700, e os primeiros modelos da Apple.
DM – Nestes 20 anos trabalhando com TI, quais foram as maiores mudanças que você notou? Como elas afetaram sua carreira?
PM – Sempre fui um técnico com uma ampla visão de negócios, olhando muito mais para os resultados do que para a forma de fazer. A maior mudança foi a penetração da tecnologia em todas as áreas e setores das empresas e profissões, o que trouxe um leque muito maior de opções para o profissional de TI. Fui migrando durante todos esses anos, me adaptando e conhecendo um pouco de tudo isso.
DM – Como palestrante, você deve viajar bastante. De que modo essas viagens afetam sua vida pessoal e profissional?
PM – Viajar e palestrar em outras cidades é uma experiência gostosa e que enriquece a vida. Conhecer novas pessoas, trocar experiências e enxergar que o mundo é além do nosso espaço é fantástico.
DM – Além de palestrante, você também é empresário e dá aulas em cursos de pós-graduação. Como foi o seu ingresso na carreira acadêmica?
PM – Tenho a educação no sangue, na família. Meu pai é educador há quase 50 anos e um apaixonado pela educação, que transmitiu essa paixão em minha formação e de minhas irmãs (tenho uma irmã que também é professora universitária). Ainda estou começando na área acadêmica e conhecendo esse novo ambiente. Acho que ainda falta espaço para minha área de especialidade, que são as novas mídias digitais, então assumo disciplinas de marketing tradicionais e revoluciono dentro da sala de aula!
DM – Sua primeira empresa foi aberta em 1992, quando o conceito de “empreendorismo” não era muito citado. Como você vê o empreendorismo hoje?
PM – Sempre fui uma pessoa de muitas idéias e nunca consegui ficar parado e ver as coisas acontecerem. Eu sempre quis participar, estar à frente. Por isso acabei “quebrando muito a cara”. É um preço que sempre estive disposto a pagar, e o empreendedor é assim. Hoje tudo mudou, há muito mais informações e oportunidades para o empreendedor se preparar.
DM – Mas as dificuldades também aumentaram por causa da alta competitividade do mercado?
PM – Sempre há espaço para criatividade e inovação. E sempre haverá espaço para uma melhor prestação de serviços. Mas é claro que existem setores que devem ser mais bem analisados, pois o risco pode ser grande e a oportunidade, pequena.
DM – Você só trabalha com internet ou já se envolveu em outros projetos fora dela?
PM – Já me envolvi até com pizza! (risos) Deixa eu explicar melhor. Tive um período da minha vida que fui sócio de uma franqueadora master de lojas de pizza rápida, estilo Pizza Hut, e acabei participando de um processo de formatação da franquia para expansão da rede. Me envolvi até no aprendizado do processo de fabricação da pizza, atendimento, etc.
DM – Orkut (site de relacionamentos), Blogs (espaço virtual onde qualquer pessoa pode escrever e publicar seus textos) e, recentemente, o Twitter (serviço de “microblog”, atualizado em tempo real), estão caindo no gosto dos brasileiros. O que você acha desse “boom” das novas mídias digitais?
PM – É a oportunidade e o espaço que todo brasileiro tem para ampliar seu potencial de comunicação, ou seja, deixar de ser mero expectador para ser o ator principal. É a comunicação sendo mais valorizada – potencializada pela internet. As novas mídias digitais vieram para ficar e mudar a estrutura estabelecida até então. Isso é bom para as pessoas, para os profissionais e para as empresas.
DM – Como elas afetam as estratégias de marketing das empresas?
PM – O consumidor não consome mais apenas TV, jornal impresso, rádio e outros veículos tradicionais. Eles consomem esses e mais outros trinta veículos. A empresa precisa adotar uma estratégia de comunicação pensando em todos esses canais e sabendo que o consumidor não quer mais apenas assistir – ele quer participar, dialogar, interagir. Os famosos 4 P’s (vide box ao lado) não dão nem para o começo.
DM – Você acredita que a comunicação através dessas novas mídias será algo duradouro ou tende a ser uma “bolha” que pode estourar a qualquer momento?
PM – Tende a ser um movimento que pode mudar, evoluir, se adaptar e se transformar. É algo muito novo, mas vem de encontro às expectativas da sociedade, e, portanto, essas e outras ferramentas de comunicação digital que surgem devem atender a essas expectativas. A internet não é uma bolha, é realidade.
DM – Em uma palestra recente, realizada para um grupo de gestores e gestoras de recursos humanos, você afirmou que há um novo perfil de pessoas surgindo nesta era das mídias digitais. Quais são os desafios das empresas na gestão destas “novas pessoas?”
PM – Primeiro, as empresas devem conhecer essas pessoas. Os departamentos de marketing estão acostumados a planejar em cima de um perfil pré-estabelecido de público e, neste momento, isso é ruim. A nova geração (e já temos no Brasil uma geração digital, considerando quase 14 anos do nascimento da internet comercial por aqui) começa a consumir baseando-se em experiências e relacionamento, e não mais acreditando na tradicional propaganda, no comercial de TV, no outdoor e outros meios tradicionais. Não é só o veículo, mas é o formato e a abordagem. Mais do que publicidade, precisamos dialogar com nosso público, criar oportunidades para ele se manifestar, participar e então comprar. Isso passa por relevância, reputação e até mesmo engajamento, palavras-chave neste novo mundo digital.
DM – Ao visitar o seu perfil no “MeAdiciona” (um tipo de “currículo online”, que lista os sites de relacionamentos, blogs, emails, etc, de uma pessoa), nota-se que você é cadastrado em várias destas novas ferramentas de comunicação digital. Como você lida com elas?
PM – Eu entendo que cada site desses é uma ferramenta de comunicação, e começo por testá-lo e adotá-lo como espaço para publicar minhas idéias e análises, e também desenvolver contatos e relacionamentos. Gerenciar tudo isso demanda tempo, mas nesta era digital é parte do meu trabalho e deveria ser de qualquer um, pois tenho a oportunidade de ter essas ferramentas trabalhando para mim. Se você não conseguir, contrate uma empresa especializada que faça isso pra você! (risos)
DM – Você divulga bastante o interior de São Paulo em seu blog e em seus sites. Qual é a força do interior na internet? Ele ainda é visto como uma região “periférica” dos grandes centros ou tem se firmado como um ótimo mercado para empreendimentos online, por exemplo?
PM – O interior [de São Paulo] ainda é pouco visto pelos grandes centros. Quase tudo se resume a São Paulo e Rio de Janeiro quando se fala em novas mídias digitais. Curitiba começa a se despontar, assim como Belo Horizonte e um pouco o Recife. Mas as grandes empresas de mídias digitais não dão atenção além do eixo Rio-São Paulo.
No início deste mês participei de um painel em São Paulo com grandes nomes desse mercado, como Michel Lent da Ogilvy Interactive, Abel Reis da Agência Click, André Almeida da Abril Digital, Guilherme Ribeinbom do Yahoo Brasil e Marcelo Coutinho do Ibope Inteligência, e, durante a minha palestra, abordei exatamente a questão do interior, do seu potencial e a pouca atenção que as grandes empresas dão para ele. Por isso estou numa luta por mudar esse cenário.
DM – Você foi um dos organizadores – e maior entusiasta – do Twestival Bauru (vide box abaixo). Como ele surgiu? Qual foi a aceitação do público?
PM – A idéia surgiu de um amigo, o Anderson Arcenio, que me falou do evento pelo Gtalk (N.R.: serviço de mensagens instantâneas do Google), e, quando fui ver, as inscrições para organizadores em novas cidades já havia se encerrado. Estávamos há 10 dias da realização do evento em 175 cidades simultâneas no mundo. Mas, mesmo assim, preenchi o formulário.
Acabaram aceitando e, através do Twitter, fomos criando um movimento com as pessoas mais conectadas e entusiastas, e, 10 dias depois, tínhamos o Twestival Bauru acontecendo – pequeno, mas cumpriu seu papel. Arrecadamos US$ 100 com 12 pessoas presentes, e o evento de São Paulo arrecadou apenas R$ 683,00 num evento para 300 pessoas. Acho que tivemos sucesso.
Twestival
Evento mundial organizado via internet, através do Twitter. O objetivo foi angariar fundos para a construção de poços de água potável em países em desenvolvimento. No Brasil, foi realizado simultaneamente em 10 cidades.
DM – Foi a sua primeira experiência em organizar um evento “offline”, mas completamente relacionado à internet?
PM – Realmente foi uma experiência única e mostrou que temos força quando trabalhamos por um bem maior. E mostrou também que os twitteiros (N.R.: apelido dado aos usuários do Twitter) bauruenses, mesmo sendo poucos, são engajados. Em breve teremos outra edição do Twestival Bauru, aguardem.
DM – Para encerrar, gostaria de fazer algum comentário, deixar algum recado, fazer alguma sugestão…
PM – Desde o final do ano passado assumi o papel de “evangelista das novas mídias digitais” e tenho trabalhado muito por mudar a cultura digital do nosso interior paulista, principalmente com foco na região centro-oeste (em torno de 50 cidades). Essa missão é compartilhada com todos aqueles que querem ver o nosso interior mais adepto às mídias digitais, com pessoas mais antenadas e conectadas, e também com empresários mais abertos a contratar os serviços de agências digitais. Em breve teremos muitas novidades em nossa região. Estamos trabalhando pra isso!